Setembro é internacionalmente marcado pela campanha Setembro Vermelho, período dedicado à conscientização sobre a prevenção e o diagnóstico precoce das doenças cardiovasculares na medicina humana e veterinária.
O coração dos cães e gatos trabalha sem pausas ao longo de toda a vida. Contudo, as enfermidades cardíacas nos animais costumam ser silenciosas, progressivas e muitas vezes diagnosticadas de forma tardia, quando o quadro clínico já evoluiu para insuficiência cardíaca congestiva. Compreender os mecanismos dessas doenças, identificar os sinais iniciais e adaptar o estilo de vida do animal são os passos fundamentais para garantir longevidade e bem-estar.
Por que as cardiopatias passam despercebidas?
Diferente dos humanos, que relatam dores no peito, palpitações ou tonturas, cães e gatos adaptam seu comportamento para compensar a perda de eficiência cardíaca. Eles passam a dormir mais, reduzem o ritmo nas brincadeiras e evitam esforços físicos.
Muitos tutores associam essas mudanças exclusivamente ao “envelhecimento natural”, deixando de investigar causas clínicas. Quando o coração perde a capacidade de bombear o sangue adequadamente, o organismo tenta compensar aumentando a frequência dos batimentos e retendo líquidos. Quando essa compensação atinge o limite, os sintomas clínicos tornam-se evidentes e exigem intervenção veterinária imediata.
Principais sinais de alerta na rotina
A observação diária em casa é o principal ponto de partida para salvar a vida do animal. Fique atento aos sintomas mais frequentes:
- Tosse seca, engasgos e pigarros frequentes: Especialmente durante a noite, nas primeiras horas da manhã ou logo após momentos de agitação física. Ocorre tanto pela compressão da traqueia causada pelo aumento do coração quanto pelo acúmulo de líquido nos pulmões.
- Intolerância a exercícios e cansaço rápido: O pet para no meio do passeio, senta com frequência ou recusa trajetos que antes fazia com facilidade.
- Alterações respiratórias em repouso: Respiração curta, acelerada ou com movimentos abdominais forçados, mesmo quando o animal está dormindo em ambiente fresco.
- Cianose (mucosas azuladas ou arroxeadas): Língua e gengivas perdem o tom rosado saudável devido à baixa oxigenação sanguínea.
- Síncopes (desmaios) e fraqueza repentina: Perda momentânea de consciência ou perda de sustentação nas patas traseiras após esforço ou susto.
- Aumento do volume abdominal (ascite): Acúmulo de líquido no abdômen, comum nas falhas do lado direito do coração.

As doenças cardíacas mais comuns em cães e gatos
O tipo de cardiopatia varia significativamente conforme a espécie, porte físico e predisposição genética:
1. Degeneração Mixomatosa da Valva Mitral (Endocardiose)
É a cardiopatia mais comum nos cães, respondendo por cerca de 75% dos casos na clínica veterinária. Afeta principalmente raças de pequeno e médio porte (como Poodle, Shih-Tzu, Cavalier King Charles Spaniel, Pinscher e Dachshund) na fase adulta e sênior. As válvulas cardíacas perdem a elasticidade e não fecham completamente, provocando o refluxo de sangue e o clássico sopro cardíaco auscultado pelo veterinário.
2. Cardiomiopatia Dilatada (CMD)
Mais frequente em cães de grande e gigante porte (como Dobermann, Boxer, Golden Retriever e Dogue Alemão). O músculo cardíaco perde força de contração, tornando as câmaras do coração dilatadas e as paredes finas, resultando em arritmias graves e acúmulo de líquido torácico.
3. Cardiomiopatia Hipertrófica (CMH)
A principal enfermidade cardiovascular dos felinos, comum em raças como Maine Coon, Persa, Ragdoll e também em animais sem raça definida (SRD). Caracteriza-se pelo espessamento das paredes musculares do ventrículo esquerdo, diminuindo o espaço interno para o sangue e criando risco elevado de formação de trombos (coágulos) que podem paralisar os membros posteriores.
4. Dirofilariose (Verme do Coração)
Parasitose transmitida pela picada de mosquitos vetores, muito comum em cidades litorâneas e de clima quente. Os vermes adultos (Dirofilaria immitis) se alojam nas artérias pulmonares e no ventrículo direito, provocando graves lesões vasculares e cardíacas. A prevenção com medicamentos específicos e repelentes é indispensável para animais que vivem ou viajam para o litoral.
O check-up cardiológico: exames essenciais
O diagnóstico precoce pode duplicar a expectativa e qualidade de vida de um animal cardiopata. A partir dos 6 anos de idade em cães de porte grande e dos 7 anos em cães de porte pequeno e gatos, a avaliação cardiológica deve fazer parte do check-up anual:
- Ausculta Cardiopulmonar: O primeiro passo na consulta clínica para identificar sopros, arritmias e ruídos pulmonares anormais.
- Ecocardiograma com Doppler: Ultrassonografia detalhada do coração que avalia a espessura das paredes musculares, o fluxo do sangue e a integridade das válvulas.
- Eletrocardiograma (ECG): Registro da atividade elétrica do coração, essencial para detectar arritmias e distúrbios de condução.
- Radiografia de Tórax: Permite visualizar a silhueta do coração, avaliar se há compressão da traqueia e checar a presença de congestão ou edema pulmonar.
- Aferição da Pressão Arterial: Fundamental para o controle de hipertensão, frequente em animais idosos, nefropatas ou cardiopatas.
Atividade física segura: como passear com animais cardiopatas ou idosos?
O sedentarismo excessivo prejudica as articulações e leva ao ganho de peso, sobrecarregando o sistema circulatório. Por outro lado, esforços intensos trazem risco de descompensação cardíaca. O segredo está no equilíbrio e nas adaptações diárias:
A escolha do acessório correto
Coleiras de pescoço tradicionais aplicam tração pontual na traqueia e nas veias jugulares durante puxões, o que pode desencadear crises imediatas de tosse e elevar a pressão torácica. A melhor escolha é o uso de peitorais ergonômicos e anatômicos, que distribuem a força da guia de maneira uniforme pelo tórax e ombros, garantindo controle sem comprometer as vias respiratórias.
Controle térmico rigoroso
O calor extremo exige que o coração trabalhe em dobro para resfriar o corpo através da respiração acelerada. Realize caminhadas exclusivamente nos períodos mais frescos do dia (no início da manhã, até as 8h, ou à noite, após as 18h). Em dias abafados, reduza o tempo de caminhada e prefira estímulos sensoriais leves na sombra.
Ritmo guiado pelo animal
O ritmo do passeio deve ser determinado pelo pet, não pelo tutor. Permita pausas frequentes para farejar e descansar. Se o animal deitar, sentar ou demonstrar respiração ruidosa, interrompa a caminhada imediatamente.
Hidratação contínua e acessível
Leve sempre uma garrafa de água fresca portátil durante as saídas. Em casa, garanta pontos de hidratação contínua – como fontes de água circulante – para manter o animal hidratado sem esforço. A hidratação adequada mantém a viscosidade sanguínea regular e reduz o esforço renal e cardiovascular.
Qualidade de vida e longevidade
Receber o diagnóstico de uma doença cardíaca não é uma sentença definitiva. Com o protocolo medicamentoso correto receitado pelo cardiologista veterinário, controle de peso, alimentação balanceada e passeios adaptados com peitorais confortáveis, cães e gatos cardiopatas podem desfrutar de muitos anos de vida ativa, confortável e feliz ao lado da família.
